Presentear e ser presenteado

Presentear e ser presenteado

Paulinha, é assim que a chamo. Um ser humano lindo, uma mulher de fibra, uma paciente ímpar! Obrigada pela oportunidade de compartilhar comigo este seu lindo texto presente e o retribuo com o presente texto em nosso site!!!

Coração desacelerado e o exercício do silencio.

E mais: Faz sereno mas eu escrevo.

dedicado a autora, no dia do seu quadragésimo sexto aniversario, vinte e oito de setembro de dois mil e dez.

 

Confesso que meu coração está tranqüilo. Diria que está desacelerado. Algo tem aquietado as batidas desenfreadas e atropeladas neste ardoroso peito.

Confesso também que meu coração está ocupado. Diria que ele tem sido freqüentado. E muito embora não me interessa publicar as delicias e os devaneios do meu alucinado coração, creio que esta ocupação, de notória e pura intensidade, tem contribuído no meu processo de cura, de ficar bem, até mesmo de conhecer-me mais e melhor. É uma sensação muito boa tirar o pé do acelerador ou mesmo experimentar uma caminhada em ritmo lento e em sintonia com a minha maneira de pensar e conseqüentemente, viver.

Tenho tentado caminhar com firmeza e levo sempre em consideração minha alegria. Costumo afirmar que minha oração é minha alegria! Alegria é um estado de espírito que colore o meu dia a dia, e é um prazer em ser alegre com as pessoas. Como diz Rubem Alves que o sentido da vida é o sentimento, meu sentido de ser alegre é meu sentimento diante da vida.

Para além da alegria está meu amor por uma vida natural e autentica. Para aquém da alegria está o meu descontrole súbito em algumas situações. Tenho buscado, em nome dessa alegria, desse processo de autoconhecimento, dessa desaceleração do coração, não me descontrolar em qualquer que seja a situação. Difícil e desafiadora essa minha busca. Inspirado em Mario Quintana, tenho atribuído ao silencio a função de espião. Espiar que nada como um dia atrás do outro, nada como o correr natural das águas do rio da vida…

E tenho exercitado escutar mais. Escutar e silenciar é tão importante quanto a pratica da palavra. Frear os meus rompantes é tornar o meu silencio uma minha outra oração!

Foi minha amiga Lilih Cury que apresentou-me a Santa do Silencio. Me pareceu altiva, imensa e plena de sabedoria. Fiquei interessada em cultuá-la. Não sei realmente se tenho conseguido ser silenciosa. No entanto, tenho praticado o exercício de silenciar em várias e inusitadas situações. É uma experimentação que nos mostra o senso da humildade e o porque da relatividade das coisas. Confesso que muitas vezes “sou contraditória sim. E contenho multidões!” Como é relativo ser contraditória! Como é contraditório não atentar para a essência e a beleza das coisas não ditas. Não dizer algumas coisas pode significar deixar que as águas do rio da vida levem e esclareçam no tempo e na medida justa os mal entendidos entre nós pobres mortais, os nossos atos mesquinhos e pouco pensados e a certeza que nada é permanente.

Confesso que gostaria de ter uma imagem da Santa do Silencio, como tenho a imagem de Nossa Senhora da Cabeça, ali bem pertinho do meu leito. E aqui, bem próximo do meu coração, nas marcas e nos meus sinais de dona idade, começo a valorizar o Senhor Tempo. Confesso também que continuo caminhando com fé. Fé no ser humano, fé na vida, fé no que virá.

E mediante a tantas confissões, impossível não confessar que amo me comunicar e que a conjugação dos verbos, a utilização das pontuações, as palavras e o sentido delas, me impulsionam e incentivam a minha escrita. Assim como Lispector, “escrevo porque encontro nisso um prazer que não consigo traduzir. Escrevo para mim, para que eu sinta a minha alma falando e cantando, às vezes chorando”. Confesso que minha escrita me provoca um turbilhão de sentimentos. O sentimento, bem diz Adélia Prado, é a coisa mais fina do mundo. Meus sentimentos são finos e nobres. Alguns são inexplicáveis, outros pouco palpáveis. E pois, escrevo por prazer, escrevo com amor, escrevo para explanar a minha dor, escrevo porque me traz felicidade, escrevo para organizar meus pensamentos, escrevo porque me traz a força da tranqüilidade.

Escrever, sem sombra de duvida, aguça em mim um entusiasmo. Um entusiasmo sereno. Tenho buscado a serenidade e me parece que ela tem estado próxima de mim, tem dormido do meu lado e me aconselhado. Senhora Serenidade, como prefiro reverenciá-la é companheira, amiga, irmã. No entanto, conquistar a sua companhia é um desafio. Tornar-se sua amiga é uma dádiva e cultivar uma irmandade com a serenidade tem sido uma missão. Missão de fé, força e paz! Missão de amor, luz e esperança! Diante dessa missão, tenho repensado valores e atitudes a cada dia. Li e escutei Rubem Alves: “a alma é uma borboleta… há um instante em que uma voz nos diz que chegou o momento de uma grande metamorfose.” Tenho escutado minha voz interior que me diz que chegou o momento de deixar sair meus rompantes e meus atos descontrolados inusitados e seguir na tentativa de tornar-me uma pessoa ainda mais simples, sensata e serena. Momento de renovação.

Confesso por fim, que faz sereno mas eu escrevo! Ana Paula Feitosa

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